Domingo, 14 de Junho de 2009

A Refeição do Cego

Pablo Picasso

III

lembras-te do que aconteceu ao Jonny?

era obviamente uma pergunta retórica. toda a gente lá do do bairro sabia que o Jonny morreu de amor. mesmo assim respondi, claro que me lembro do Jonny. só. atormentado. cheio de cicatrizes por dentro. o típico miserável que ninguém percebe, mas que todos sabem que fim terá.

pois. no dia em que o Jonny morreu de amor só ouvi passos, sinos e persianas a fechar. houve um silêncio humano por todo o bairro que me desorientou, enquanto os sinos não pararam. nunca antes me havia sentido tão cego.
mas o que me mais me desolou foi ter percebido que toda a gente do bairro sabia que Jonny acabaria por morrer de amor. e ninguém fez nada. toda a gente sabia. e ninguém fez nada. não sei se estás a ver, moço.

não, não estava. ele tinha razão, toda a gente sabia que o Jonny não poderia acabar de outra maneira. mas não estava mesmo a ver onde queria chegar com aquilo. o Cego já me estava a foder. então, brusco, levantei-me para bazar, aquela conversa não era mesmo para mim. muito mais rápido do que eu, o cego segurou-me no braço e sussurrou-me num tom sinistro e sibilante.

fica a saber que o Jonny também almoçava comigo todos os dias. dantes era ele quem ocupava essa cadeira. e foste tu quem herdou a Refeição do Cego e o fim a que ela condena. acabarás como o Jonny. não queiras entender isto. compreenderás quando chegar a tua hora. então perceberás como seria diferente se alguém se tivesse preocupado. agora vai. o Jonny morreu de amor. não foi o primeiro, e tu serás o próximo.

finalmente soltou-me e deixou-me ir. nunca mais vi o Cego, mas só porque não vivi muito mais tempo. quando chegou a minha vez, os sinos do campanário ecoaram novamente por todo o bairro... será que o Jonny também os ouviu?

Domingo, 7 de Junho de 2009

A Refeição do Cego

Pablo Picasso


II

começava a tornar-se um hábito.

eu era sempre o primeiro a chegar.

passados instantes, o tac-tac longínquo de uma bengala aproximava-se de mim, trazendo consigo o Cego.então sentava-se em silêncio, e desbravava o pão. acabávamos sempre por falar de alguma coisa. acho que o Cego gostava de mim precisamente por eu não gostar dele. comigo não se sentia alvo de pensamentos piedosos ou compaixão, nem nada que o fizesse recordar que todos vêem e ele não. a minha insensibilidade fazia-o sentir-se um igual, e não um escaparate dos compadecidos..

de todas as pessoas que iam lá comer, ele era o único que eu suportava. as gentes da sopa dos pobres cheiravam mal, tinham um aspecto sujo e arruinado, e nunca tive muita paciência para os oprimidos. mas o isolamento do Cego casava bem com a minha solidão. pelo menos até que me falou do Jonny.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

A Refeição do Cego

Pablo Picasso


isto aconteceu.

por vezes almoçava com ele, lá na sopa dos pobres. nessa altura eu não trabalhava, mas só porque não me apetecia. ele mendigava onde pudesse. até tinhamos algumas coisas em comum, pelo menos pertencíamos à face negra da sociedade. dois renegados, um por condição, outro por vocação. quando lhe perguntei o nome, disse-me apenas que o tratasse por Cego.

tudo bem, respondi, é fácil de decorar.

o Cego era cego desde que nasceu. mesmo assim apercebia-se bem do que se passava à sua volta. sentia quando alguém estava feliz ou condoído. ele reconhecia as pessoas pelo cheiro e pelos passos, e percebia sempre a compaixão distante de quem fitava os seus olhos sem vida. ele não se importava que sentissem pena dele. já estava habituado. só não suportava ouvir os diminutivos que eram sussurrados à sua passagem insegura, vagarosa.

coitadinhooooooooooooo, diziam eles.
pobrezinhoooooooooooo, diziam elas.
não me aborreçam, eu sou só cego!, não dizia ele.

é difícil não admirar estes gajos.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

A Morte de Marat

Paul Baudry

-JONNY MORREU DE AMOR!

- O JONNY MORREU DE AMOR!

- SABIAM QUE O JONNY MORREU DE AMOR?!


os putos lá do bairro foram os primeiros a saber, e espalharam a má notícia por todas as ruas. e assim se soube que o jonny morreu de amor.

então os sinos do campanário dobraram pelo jonny, as lojas fecharam, e o pessoal foi à igreja, seguindo o rastro dolente de uma mãe chorosa. até o homem do talho apareceu no funeral. eles nunca se gramaram, nunca soube porquê.

lá no bairro ninguém ficou surpreso, e é difícil chorar muito por uma morte anunciada. há já bastante tempo que se sabia que o jonny acabaria morto de amor, ou então escravo da bebedeira. o jonny nunca soubera viver, saltava sempre de erro para erro, sempre metido em sarilhos. e no amor era ainda pior.... o rapaz não tinha jeito.

o pessoal do bairro tem memória curta, e brevemente o jonny será esquecido. talvez venha a ser lembrado quando nos cafés e cabeleireiros se falar daquela terrível geração dos anos oitenta, de putos chalados que espalhavam o caos pela vizinhança. até que um dia tiveram mesmo que crescer. quando se falar deles, já estou mesmo a ver o paleio:

o Grizas casou e bazou para outro país.
o Chico está preso, sai no próximo ano.
o Maurício trabalha no obral, instala canos.
o Renato Postiço deu-se bem, está a gerir um banco. tem cá um carrão...!

e o Jonny morreu de amor.

Terça-feira, 19 de Maio de 2009

O Pianista

Elisa Ransonnet

hoje ele era mais espeluncas, mas nem sempre foi assim.

na sua juventude, quando as suas mãos não tremiam durante os staccatos, habituou-se aos palcos mais imponentes e às mais garbosas plateias. correu todos os teatros da nata social, todos os coliseus e salões nobres, e uma vez chegou mesmo a tocar para o rei de espanha. tratava-se de um monarca estúpido e de fácil deleite, que só se interessava por caça. mas foi quase uma honra.

depois as suas mãos começaram a tremer durante os staccatos, e perdeu o dom que o fizera sonhar com a fama e a ribalta. então foram-se os palcos imponentes de garbosas plateias, e vieram os cabarets de indigentes, bêbados abraçadiços e putas peçonhentas. almas de poucas letras que não percebiam que as suas mãos tremiam nos staccatos, e que já não podia tocar para gente mais polida. nem mesmo para o rei de espanha.

hoje ele era mais espeluncas, e seria sempre assim.

Quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Rapariga a Tocar Violino

Tim Hyde

chamava-se zorana filipovic, e vinha de um daqueles países de nome impronunciável. que só se sabe que existem por causa de alguns aventureiros, e do national geographic. ela dizia-me que era a única violinista do seu país. não acreditei. mas lá que era de todas a mais adorável... ah zorana... se me tivesses deixado entrar...

zorana não era muito bonita, mas não fazia mal. tinha qualquer coisa que nem camões poderia descrever. os gestos, o olhar, a respiração, e sobretudo o arquear de sobrancelhas quando alguém dizia uma baforada. uma vez disse-lhe que para mim tinha havido um concílio de deuses só para fazer os seus cabelos, mas não me deu importância. apenas arqueou as sobrancelhas.

na última vez em que vi zorana filipovic, disse-lhe que seria a última vez em que a veria. mal eu sabia que continuaria a vê-la por dentro de mim, sempre que pensasse numa coisa bonita. não poderia ter sido diferente, ou não seria zorana filipovic.

lamentavelmente nunca chegou a saber o meu nome.

Domingo, 3 de Maio de 2009

Mada Primavesi

Gustave Klimt

é quando os dias começam a ficar maiores que mais sinto a tua falta. e da rua augusta. e do mar de setembro. e daquelas tardes frias. se tu soubesses...

e no entanto os violinos ainda soam ao longe, de muito longe. de um desses campos de morangos que poucos sabem onde ficam. se eu soubesse...

se nós soubéssemos.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Rapaz de Colete Vermelho

Paul Cezanne
chegou a casa, pousou a pasta com o tinteiro e a ardósia, e foi para o quarto. a mãe, que tentava acender o fogão a lenha, estranhou o seu silêncio. desde sempre ele chegava frenético e contava-lhe as suas pequenas glórias desse dia. os elogios do mestre-escola. as brincadeiras aos xerifes e comanches em que entrara. mas hoje não.
não havia nenhuma razão para tanto distanciamento. não estava apaixonado. não era da idade. não lhe roubaram o lanche. simplesmente, hoje não. apenas isso. amanhã seria outro dia. mas hoje... hoje não. nenhuma moral, significado, ou conclusão. rimou.

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

O Baloiço

Jean-Honore Fragonard

por acaso havia sempre um baloiço. podia ser em qualquer lugar, na selva, no topo de uma montanha austríaca, nos jardins suspensos do louvre... mas por acaso havia sempre um baloiço. sempre as mesmas sensações. a liberdade do sobe e desce. o vento que lhe assoprava nos pés, na cara, nas coxas. os gracejos insinuantes dos belos cortesãos que a empurravam, entre um sorriso e um madrigal. por acaso havia sempre um baloiço. era normal sonhar assim.

tão normal que sabia que sonhava. e que em breve o besouro a acordaria para o mundo real. onde a esperava um homem para quem se abria à noite, mas que não poderia nunca ser um dos cortesãos. onde a esperava um emprego de merda. onde a esperava o tédio aconchegado de quem já nem se importa de ser pouco feliz. mas por acaso havia sempre um baloiço. sempre. um baloiço.

Quinta-feira, 26 de Março de 2009

Terceira Classe

Honoré Daumier

a última carruagem do comboio era a mais pequena, e a mais ocupada. numa viagem, um poeta falhado chamou à última carruagem o vagão dos simples. das criadas. dos camponeses. dos analfabetos. dos renegados. dos salafrários. do calor molhado que a todos consome em ardor e transpiração. ali ninguém falava de sonhos nem de ambições. então cantavam. cantavam aquelas canções que sobrevivem ao fim das gerações, e que os engomadinhos tanto desdenham. enquanto isso, uma mãe solteira soprava em vão o rosto do filho. que sem perceber porque lhe ardia o corpo e a respiração, chorava.

de vez em quando o revisor ia à última carruagem, e num berro ordenava aos seus ocupantes que parassem de cantar. era só o que faltava, que incomodassem os passageiros que viajavam nos arejados vagões das pessoas-bem. não fazia mal. eles já estavam habituados. as coisas eram mesmo assim na última carruagem.

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Claude Monet lendo um Jornal

Pierre Auguste Renoir

o homem que fumava cachimbo lia sempre o mesmo jornal. todos os dias. o mesmo jornal.
as pessoas perguntavam-lhe porque o fazia, no tom discreto e piedoso com que é costume falar-se dos anormais.

mas o homem que fumava cachimbo era de poucas falas, e nunca lhes respondia. parece-me que não gostava muito de pessoas, pelo menos daquelas que viviam o habitualmente.

uma vez o homem que fumava cachimbo disse-me que era pintor.
de casas?, perguntei. nesse tempo eu era jovem, e também um pouco imbecil.
não. de momentos. pinto momentos. momentos marcantes, ou simplesmente banais. como este, em que estou a ler este jornal pela enésima vez. quem sabe se não daria uma tela imortal?

eu tinha muita pena do homem que fumava cachimbo, e fingia acreditar sempre nas suas histórias. e então ficava a ouvi-lo. lembro-me de que ele falava bem. talvez dentro de si houvesse algo de especial, talvez.

um dia o homem que fumava cachimbo deixou de aparecer. nunca mais ninguém ouviu falar dele, nem do jornal de páginas amarelecidas, nem do cachimbo sempre aceso. ainda hoje não percebo porque acreditaria ele que os momentos podem ser pintados.

como aquele em que lia o jornal o homem que fumava cachimbo.

Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Duas Mulheres do Tahiti

Paul Gauguin

quando o nosso capitão disse aos marinheiros que regressaríamos a Portugal no fim da época das monções, ninguém quis acreditar.

voltar à nossa terra?! mas nós estamos no paraíso!! - praguejou o gajeiro, irado. era um jovem fechado e analfabeto, mas que sem o saber tinha uma veia de poeta. ele costumava dizer que aquela ilha povoada de ninfas amorenadas e onde o frio não pode entrar, era uma amostra terrena do paraíso. aquele com que o capelão tentava dissuadir-nos das noites regadas a rum, fogueira e orgia.

sim, voltar à nossa terra. el-rei chama-nos. virão outros. - disse ainda o capitão. virão outros.

e assim fomos. quando a monção terminou, armámos as velas e lançámo-nos ao mar. enquanto a ilha desaparecia-nos da vista e do encantamento, lembrei-me da última vez em que vi aquela nativa. aquele dia teria que chegar, as coisas são mesmo assim quando nos apaixonamos por alguém de um mundo diferente. ela sabe que não a esquecerei, e isso terá que chegar para uma vida inteira.

oxalá o tal paraíso do capelão exista mesmo, e assim talvez nos possamos reencontrar.

Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Jovens ao Piano

Pierre Auguste Renoir

eram as filhas do meu senhor. costumava ouvi-las das águas furtadas onde vivia, nas horas vazias das minhas funções de mordomo ignorado. não tinham muito talento, mas como qualquer menina educada na nata da sociedade, sabiam tocar piano, falavam cortês e ignoravam por completo os assuntos dos homens. nisso eram muito boas. pelo menos aos olhos do pai.

mas um dia cresceram e preferiram a vida airada ao espartilho e à castidade. a loira foi a mãe do meu primeiro filho ilegítimo. não sei o que será feito dela. dizem que foi para Génova com um mercador sexagenário, e que não pensa voltar. quero acreditar que isso é verdade.

a morena... bem, a morena vi-a numa noite de bebedeira, num desses cabarets de Madame Paris. não escondeu o embaraço quando me viu. só custam os primeiros homens, disse ela antes de desaparecer.

ao menos escolheram por elas o mau caminho, e disso eu não me posso orgulhar. para mim serão sempre as filhas do meu senhor. aquelas que de laçarote no cabelo e passinhos miudinhos enchiam de vida e alegria aquela casa, com gargalhadas histéricas e agitadas, entre o piano e o jardim. como quem dava os primeiros passos rumo a um futuro que era brilhante.

Sábado, 2 de Agosto de 2008

A Leitura

Èdouard Manet

"américa? vais para a américa?! mas porquê? esta podia ser a altura certa..."

nunca mais esqueci estas palavras. ela não chegou a perceber como é que eu sou. não percebeu nada. que a pequenez do meu país é a minha lusofobia. que a explosão dos meus afectos é a minha solidão. que as palavras piedosas num romance que não pode ser, são a minha impotência.

"sim. vou para a américa. para a américa. vou pelo sonho, pelo distante, pela aventura. amanhã estarei na américa. e se até ao meu regresso não sentires a minha falta, saberemos que não haverá nunca uma altura certa."

ela não percebeu nada. bastaria uma só palavra, mas não percebeu mesmo nada. ah, que se foda, já só quero sobreviver. américa!

Domingo, 27 de Julho de 2008

O Nascimento de Vénus

Gustave Moreau

um anjo escandinavo perdeu-se de Asgard, e agora não sabe quem é. hoje aterrou à minha frente e fiquei apavorado. mas maior era o desejo do que o medo, e não fugi. então o anjo escandinavo perguntou-me "quem sou eu, mortal? responde-me!"

sempre fui um tacanho no uso da palavra, e por isso deixei sair o que o instinto quis dizer:

"- tu és o amor fugidio... sim, tu és o amor fugidio."

"- amor fugidio?! que quer isso dizer, mortal?" - o anjo escandinavo era um pouco impaciente, e às vezes dizia palavrões.

- o amor fugidio é aquele que não se pode ter, mas do qual não nos podemos libertar. estamos sempre a um passo de o conquistar, mas jamais acontece. escapa sempre, deixando-nos mais sós. - respondi. o anjo escandinavo sorriu, e estendeu-me a mão. não fui com ele. nunca iria com ele, mas não por vontade própria.

ainda hoje o anjo escandinavo não sabe quem é, e vagueia por aí. já não o vejo há demasiado tempo, e sei que por vezes ainda se lembra de mim. com paixão, com pesar, com vontade de rir e chorar, como sempre acontece no amor fugidio.

Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

Jean e Gabrielle

Auguste Renoir

nunca tive grande paciência para bebés, e continuo a não ter. continuo a abominar as tuas birras quando não dormes a sesta, as fraldas que cheiram mal de cinco em cinco horas, e aquelas vezes em que me gritas indignado quando nos zangamos. isso até se compreende, pois ainda não sabes palavrões.

e no entanto, não consigo exprimir a ninguém o quanto tudo isso é bom.

quando tu nasceste, não sei se te lembras, todos te acharam parecido com quase toda a família. a casa estava cheia de gente que nunca mais ia embora. uns diziam que és a cara do teu pai, outros que te parecias com a tua mãe, e houve alguém que proclamou que davas ares de uma tia que já morreu, não me lembro qual.

não disse a ninguém, mas para mim tu és parecido comigo.

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

O Despertar da Consciência

William Holman Hunt

por vezes perdes grandes oportunidades, disse ela antes de abalar.

ela seria sempre como ele a recordava, mesmo quando envelhecesse e ficasse feia. o vestido de musselina esvoaçante pousado no corpo, os cabelos da cor do limão, e o temperamento deliciosamente explosivo. era como era, e foi-se como se foi.

ele seria sempre como ela o rejeitara, mesmo quando envelhecesse e ficasse cansado. um repentismo que mais ninguém tem, uma caixa de surpresas sem fundo à vista desarmada, e uma tendência insuportável para antever o desastre a meio do sonho. era como era, e ficou-se como ficou.

por vezes perdes grandes oportunidades, disse ela antes de abalar. e foi-se. então, entre a solidão de um piano calado, ele brindou um martini à sua abalada, e tocou a derradeira sonata a mais esta grande oportunidade perdida.

Domingo, 15 de Junho de 2008

Nu Frente ao Espelho

Pierre Bonnard

és sempre a última a rir. eu bem me esforço por ter mais peso em nós, mas és sempre a última a rir. não se percebe. talvez o problema esteja em mim e não no teu engenho. estou habituado a mulheres com docilidade de gato, e tu tens coração de leão. sou eu quem joga sujo, sou eu quem vicia os dados e desaparece antes da batota. mas és sempre a última a rir. olha que isso não te fica nada bem.

não acendas a luz quando saíres, e não procures mais o riso em mim. porque o teu futuro será com outro homem da tua vida. um que só tarde de mais descubra que és sempre a última a rir.

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Criança nos Braços da Avó

Julia Swartz

por vezes lembro-me de ti, e fico no passado até acordar. acho que já não sei o teu rosto. só consigo recordar os cabelos brancos, as rugas que abriam e fechavam conforme sorrias, e os óculos de zinco sempre embaciados.

lembro-me que não gostava das tuas mãos trémulas e encarquilhadas. lembro-me que não gostava do teu cheiro, embora já soubesse e compreendesse que todas as pessoas de idade cheiram a corredor de hospital. lembro-me que odiava que as tuas amigas, aquelas que pareciam ter mil anos, me enchessem de beijos naquelas tardes de chá. ficava lambuzado até à exasperação, e zangado contigo enquanto conseguisse.

e no entanto.... nunca ninguém me abraçou como tu. ninguém. nunca me senti tão protegido como no teu colo, quando me contavas aquelas histórias que metiam fadas, princesas, e meninos abandonados. só tu me fizeste rir e chorar ao mesmo tempo, e talvez seja por momentos assim que não se pode voltar a ser criança.

a ti ergo a minha taça, estejas onde estiveres.

Sexta-feira, 30 de Maio de 2008

Nu entrando na Banheira

Pierre Bonnard

ó querida... o que querias que dissesse? preferes mentiras? tu cheiras mal! mas mesmo mal.

ó amor... há verdades que têm que ser ditas a bem da nossa civilização... é que não se podia estar perto de ti.

ó bebé, não chores mais... lágrimas leva-as o sabão azul e branco... não te lavas há meses e querias mimos?! tu cheiras mal. mas assim muito, muito, muito.

eu também não me lavo? ó meu torrãozinho de açúcar, tu sabes o quanto odeio água... não vês que eu sou homem? faz parte de nós! cheirar bem é coisa de mulheres, crianças e homossexuais, está bem pipoquinha?

e depois a nudez fica-te tão bem... o quê?! mas o que é que foi agora?!

Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

O Provador.

Anniballe Carraci


a panaceia existe, eu sei que a panaceia existe!!

era o que jonas costumava dizer aos que o achincalhavam. desde sempre empenhado em descobrir a cura de todas as enfermidades, era a essa descoberta que dedicava toda a sua alquimia.

ninguém acreditava nele, era simplesmente um falhado. a igreja apregoava-lhe que a panaceia era um mito pagão, ele que tivesse cuidado com as heresias. os filósofos invocavam o equilibrio de todas as coisas, e que a panaceia poria em causa tudo o que os homens sabem sobre a metafísica e a realidade. os outros alquimistas apenas o ignoravam, chamando-lhe louco e demente. o que de resto era verdade.

era jonas quem provava os seus experimentos, as mais incríveis mistelas. de alma e coração postados na antecipada glória de que se descobrisse a panaceia, seria ele o primeiro de todos os homens a tomá-la. mas um dia correu mal. por ironia, ao tentar a descoberta da cura milagrosa acabou por fabricar um veneno mortal. invencível. fulminante. era o fim dos seus dias de alquimista fracassado.

merda! pensou antes do último suspiro. terá sido do mijo de morcego?

Domingo, 18 de Maio de 2008

Odalisca

François Boucher

lógico que não a suporto, já estou farto da gorda. mas enfim, aos homens de grandes necessidades, exigem-se grandes sacríficios. é fácil entender por que estou com ela: gosto muito de doçuras, mocanquices, e fusão espiritual... mas o que eu quero mesmo é dinheiro, e disso a gorda tem mais do que massa adiposa.

ela hoje rogou-me por lealdade, que não lhe mentisse, e que dissesse sem loas nem floreios o que sinto. então murmurei, de olhos no seu peito gelatinoso, o que a gorda desejava ouvir. que ela era o meu tesouro, que a amava muito, e essas merdas.

acho que cheguei a dar-lhe a minha palavra de honra. não vale muito, lá está, mas sempre torna as minhas tangas mais plausíveis. um dia os salões de génova e paris hão-de ouvir falar de mim, e vou esforçar-me para que seja pelos piores motivos.

depois falamos, a gorda está a chamar. já cá faltava...

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Retrato de Diego Marteli

Giovanni Boldini

não, não posso fazer melhor. não é essa a minha sanha. não sei ser de outra maneira. sei que quando for velho, e ainda mais decadente, vou olhar para trás. para tudo aquilo que já fiz, que já fui, que já vivi.

então verei todo um passado marcado por dependências, mulheres e comportamentos juvenis. e ficarei furioso, por não ter podido fazer melhor.

não, não posso fazer melhor. sei como vão ser todos os desamores, os recuos, e as inconstâncias. sei como vão doer todas as vezes em que reneguei o amor. sei como vai pesar ter vivido sempre além dos limiares da perda de tempo e da lucidez. mas não, não posso fazer melhor.

Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Alionushka

Viktor Vasnetzov

quando o senhor oficial entrou na caserna para onde os soldados a tinham levado, ela julgou estar salva. certamente iria pô-los a fome e ferros por vergonhosa conduta, tudo pela honra do exército, do império e da república. mas o senhor oficial não era um militar decoroso nem disciplinador. quando entrou na caserna comunicou aos militares, lá do alto das suas insígnias, patente e autoridade, que seria o primeiro. eles que ficassem com os restos, se ainda a desejassem. mas a hierarquia em tudo e sempre.

ela nunca foi a mesma, mas os soldados... esses serão sempre iguais. porque em tempos de guerra e revolução vale tudo menos ser condenado. danos colaterais, apenas danos colaterais.


Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Harmonia em Cinzento.

James Whistler

já estava tudo dito, não havia mais nada a acrescentar. era o fim. o melhor fim que se pode ter, aquele que era por ambos desejado. para trás ficava um frouxo namoro de cinquenta e sete dias. para a frente não sobraria nada. era o fim.

já tinham falado de amizade, consolação e votos de boa-ventura. era o fim. já só faltava o bye bye, adeus. mas estranhamente deixaram-se ficar. o namoro fora um fiasco sensaborão, mas ao menos que o fim fosse memorável.

era Outono. as árvores estavam despidas, as vistas nebulosas, e o céu desolado. um cenário perfeito para um final indiferente. mas não, mas não... porque era o fim. e já nenhum conseguia recordar o que outrora afinal se iniciara.

Segunda-feira, 14 de Abril de 2008

Absinto

Edgar Degas

miseráveis? com toda a certeza, sim. é o que se pode dizer de quem vive em permanente bebedeira. em que a maior preocupação é saber qual o grau de devastação que a próxima ressaca trará consigo. miseráveis, claro, em toda a acepção da palavra. não têm lucidez, não têm ninguém, não têm amanhã.

e quem tem isso tudo, e muito mais? saberá o valor? ou nunca o poderá entender por nunca se ter perdido? quantos serão aqueles que tendo tudo, só sentem um profundo tédio em cada dia que passa? o trabalho que há muito aperta e deprime... a casa silenciosa que há muito cheira a velhice e solidão... a cara-metade pouco atraente, que há muito deixou de ser uma companhia de espírito.

miseráveis? com toda a certeza. mas talvez nem estejam a perder grande coisa.

Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Piagentina

Telemaco Signorini

estas seriam as suas mais antigas recordações.

horas antes a mãe tentara explicar que não basta ser mãe, que era preciso querer ser mãe, e que um dia descobriria uma mãe que mãe dela quisesse ser. o pai... esse era de mais polidas falas. falou-lhe em viajar, correr o mundo, mulheres, fama, glórias e aventura. e que assim não dava, que se a menina ainda não o podia acompanhar que ficasse em terra. alguém tomaria conta da menina, e de certeza que bem melhor do que ele o faria.

e lá se foram os dois. a mãe e o pai, caminhando pela estrada de macadame que conduzia à cidade, até desaparecerem para sempre da sua vista.

ao anoitecer, quando já não podia chorar mais, chegaram os senhores de negro. disseram-lhe que iriam recebê-la, que iria viver para uma casa muito grande e muito bonita. onde não haveria papá nem mamã, mas em contrapartida teria muitos, muitos, muitos irmãozinhos. como não lhes disse o seu nome, chamaram-lhe piagentina, o nome da terra do seu abandono.

boa sorte, piagentina. oxalá que as boas intenções te acompanhem, e não penses mais nisso.

Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Celestina.

Pablo Picasso

de celestina a maioria conhecia apenas o nome. em todo o bairro se comentava as suas ligações com ritos satânicos e práticas bruxuleantes. as crianças temiam-na numa curiosidade indizível. os adultos disfarçavam como podiam o seu incómodo. e os velhos viam nela uma espécie de ser inumano: alguém que não está morto, mas que não está propriamente vivo. celestina era o avatar do imaginário negro de cada um.

não só pelo olho de vidro - que era horroroso - nem pelo semblante mefistofélico. dizia-se que a todos aqueles que por ela se afeiçoassem, alguma coisa terrível aconteceria... uma daquelas maldições mortais que raramente dá jeito mencionar. e porque raras vezes os mitos urbanos são totalmente falsos, todos a rejeitavam, fingindo ignorar a sua existência pelas ruas. desviando o passo, o olhar, a consternação.

celestina... és bem digna de dó... começo a simpatizar contigo, e toda essa solidão. ah, foda-se.

Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Um Beijo Roubado

Jean-Honore Fragonard

chamavam-lhe o fantasma do palácio. e era do conhecimento das passagens secretas que vinha o seu poder, a sua invisibilidade.

o fantasma do palácio ninguém o conhecia, mas ele observava toda a gente. era como um Grande Irmão, mas muito poucos estavam cientes da sua omnipresença. sabia tudo o que acontecia no palácio, das masmorras até aos aposentos reais. sabia de cor as rotinas prostradas dos prisioneiros. podia antecipar cada movimento do rei, e conhecia o corpo da rainha melhor do que as criadas e as damas de companhia. cujas curvas também não lhe escapavam. só ele sabia quantas concubinas tinha o rei. só ele sabia que o princípe era homossexual. e dos passivos, ó suprema das indiscrições.

havia quem comentasse que, por vezes, o fantasma do palácio irrompia de uma das suas passagens e atacava as aias da rainha. tudo começava por um beijo que elas fingiam dar a contra-gosto. depois... era o fogo do além. e também consta que antes de desaparecer, dava-lhes uma palmada no rabo. mal-criado.

Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

As Respigadeiras

Jean-François Millet

ainda o dia não era nascido, e já o capataz irrompia pela sanzala berrando o despertar de mais um dia que seria passado nas searas. era a época das respigas. trabalho duro, suado e curvado. alguém teria que o fazer, e não seriam certamente os filhos do senhor. elas tinham as mãos gretadas e encrespadas, como convém a qualquer respigadeira. mesmo àquelas que não são livres. há muito que deixaram de sonhar com a liberdade, se é que alguma vez puderam fazê-lo. e era por isso que alguns dos mais atentos, se perguntavam de onde viria aquela estranha dignidade.

diziam as más-línguas abolicionistas que, de vez em quando, tinham que se abrir aos desejos do senhor. que a todas tratava por pretas.

Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

Anjo Caído

Hugo Simberg

é assim que as coisas se passam. sempre. e só nós que os socorremos é que sabemos a verdade. desde o berço até à morte, os homens crêem ter à sua espera uma eternidade no Céu. onde se transformarão em anjos de asas e auréolas flutuantes. e então ficará tudo bem. mas a verdade é que às vezes, só às vezes, até os anjos são rejeitados entre os seus iguais. cuspidos e agredidos. e no fim da agonia, atirados cá para baixo.

depois somos nós, que os socorremos, que lhes tentamos explicar que nunca mais voarão. e que por mais que tentem jamais encontrarão o seu lugar, onde quer que estejam. já que nem no Céu foram aceites. não há explicação para a queda de um anjo. simplesmente foram rejeitados. e para esses, é assim que as coisas se passam. sempre.

Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008

Ophellia

Annie Ovenden

às vezes apetece-me oferecer-te bem mais do que as boninas que seguras. e dizer-te que sonho contigo, e que nunca ninguém te amará como eu. que adorava ver-te nua. que peço às estrelas, àquelas que já explodiram e a gente não sabe, que um dia me deixes entrar.

é por isso que tantas vezes coço, parolamente, a cabeça quando estou contigo. com a mão esquerda. sempre me pareceu a mão mais adequada para se coçar a cabeça, é tudo uma questão de enquadramento de perfil.

sei que não sou quem tu desejas. e que sou daqueles homens que te fascinam ao longe, e te transtornam ao perto. eu sou aquele que mais chora por ti, e te esconde no peito num amor secreto que jamais poderá ser revelado. acho que nem Deus sabe o quanto lamento que me conheças tão bem.

Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Os Jogadores de Xadrez

Honoré Daumier

porque a maioria vive de olhos fechados, poucos compreendem que só podemos sentir-nos vivos quando existe um desafio que nos entusiasme para além da vitória. eles perceberam-no desde a infância. em crianças, disputavam os carrinhos de madeira clara que a mãe trazia das feiras. na adolescência apostavam que seriam primeiros a masturbar-se, enquanto fitavam a ninfa que os atiçava de um calendário encardido. aos vinte anos disputavam as mulheres que ao outro interessassem, mesmo que fossem de abominável temperamento e fealdade. na hora do lobo, comparavam as capacidades dos filhos, elevando-os à condição de sumidades intelectuais e/ou vedetas desportivas. mesmo sabendo que não passavam do pouco que eram: banais e colaborantes.

agora aproximava-se o fim da competição. já nada lhes restava que pudessem considerar como seu, a não ser os anos de vida que lhes restavam. então, todas as tardes, jogavam xadrez. tudo pela competição que a tudo dava um sentido. e sempre com a certeza de que, fosse qual fosse o vencedor, os dois ficariam sempre a perder.

Domingo, 13 de Janeiro de 2008

O Lanche dos Barqueiros

Auguste Renoir

hoje era dia de festa. das vozes ecoantes. da leveza das emoções. das mulheres bonitas. e das outras que não.

os exércitos de Hitler avançavam já pelo sena, trazendo consigo o espectro esvoaçante da morte. às igrejas acorriam mães chorosas e noivas aterrorizadas com os presságios de pré-viuvez. no cais da cidade, multidões de franciús incrédulos observavam os cargueiros e fragatas, que de suástica à proa aproximavam-se confiantemente. sabiam os mais velhos que era o terror que chegava na sua expressão mais fria, e que a frança seria invadida e subjugada por putas fascistas. ou talvez ainda pior.

estes não queriam saber. não era nada com eles. hoje era dia de festa. e nem um B-52 poderia alterar essa condição que a todos envolvia. porque hoje era dia de festa. era só isso que agora precisavam de saber.

Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

O Assassino de Camden Town

Walter Sickert

já outrora prometera que não o faria mais. noutra hora, com outra vítima. já não se lembrava qual.

longe iam os tempos em que daniel matava por rebeldia e auto-recreação. hoje era um profissional. o vazio de culpa silenciada que sentia após cada serviço, era compensado pelos mitos de fora-da-lei que ia granjeando entre aqueles que, horrorizados, escutavam os seus feitos.

daniel... o assassino...
daniel... o wanted vivo ou morto...

hoje não era bem assim. já não fazia a barba nem usava brilhantina antes de cada serviço. já não pedia perdão a Deus, mesmo sabendo que a misericórdia não estaria na Sua agenda. já não rejubilava quando ouvia falar de si nos saloons, de cidade em cidade. um nome gigantesco para um rosto desconhecido. estava cansado. mas a verdade é que gostava daquela vida. daniel... o arauto da morte... porque nunca ninguém lhe chamara isso?

acendeu mais um cigarro, e desenhou argolas de fumo no ar. de repente lembrou-se que a gaja morreu tal como viera ao mundo, e soltou uma gargalhada.

era tempo de partir. havia um pagamento de sangue a receber, e um serviço marcado para os próximos dias. e para os próximos dias. e para os próximos dias.

Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

A Rapariga do Brinco de Pérola

Jan Vermeer

amanhã. às cinco. no adro da igreja. não tragas flores. sabes o quanto odeio as tuas tentativas de mimos. não tragas madrigais. sabes que apenas sou sensível ao que tu não me consegues dizer. não tragas intenções. sabes que só prevalecerá o que quero, e que serás sempre um desinteressante escravo dos meus desígnios. amanhã. às cinco. no adro da igreja.

levarei comigo tudo aquilo que te avassala. e como sempre suplicar-te-ei com os olhos que me faças sentir, nem que seja só por um instante, que um dia poderei perder-te. como sempre não o perceberás. serei a titereira que te possuirá entre as mãos e a vontade. e então sentir-me-ei um bocadinho mais longe de ti.

no adro da igreja. às cinco. amanhã. por favor, diz-me que não.

Terça-feira, 1 de Janeiro de 2008

A Lição de Música

Gabriel Metsu

atentai-me então, madame. quanto à minha humilde pessoa, a música é por excelência a mais conciliadora de todas as linguagens que o criador concebeu. as notas de uma melodia são pois desamarradas de quiproquós, injúrias ou supressões, e condignas aos afectos que a cada qual aprouver. não haveis compreendido nenhum destes preceitos, pois não madame?

enfim, merda. recomecemos.

Domingo, 30 de Dezembro de 2007

Um Momento de Pesar.


William Birney

nunca ninguém soube o que dizia a carta. quando alice terminou de a ler, repousou os olhos no chão, e queimou-a. afinal as velas que se acendem de dia servem para alguma coisa, pensava. os olhos no chão. desde então, nunca mais falou com ninguém. emudeceu. ainda hoje as amigas se perguntam que espécie de desencantamento negro alguém lhe enviara. mas as suas mentes pouco habituadas à descoberta dos mistérios que a lógica não pode explicar, não puderam jamais vislumbrar a verdade. alice, a doce alice, já não vivia. ninguém compreendeu o seu abandono astral, nem os poetas o conseguiram decifrar. e tudo isto porque nunca ninguém soube o que dizia a carta.

Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Olympia

Edouard Manet

eu sei, meu lindo. não por vontade própria, mas nunca me esqueceste. sim, eu sei. há mulheres que não podem ser esquecidas, da mesma maneira que só puderam ser amadas. por muito cabronas que tenham sido, sim. e agora, o que pretendes que te diga? que lamento muito? que voltes? que me esqueças? desaparece, e tenta viver melhor. é menos difícil do que parece. vá, andamento. deixa-me a sós com a preta, que a ti não tenho mais nada a dizer.

Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Natividade.

Corregio

todos os anos da minha quiçá demasiadamente longa infância, pedi ao pai natal as edições históricas da playboy, um kit de armas incendiárias e uma praia de mulheres semi-nuas, alegremente saltitantes. estranhamente nada disto aparecia na consoada. e então não compreendia como podia o pai natal confundir tudo isto com playmobils, bombons em forma de sino e o abominável Vert Savage.

"muito tempo a lidar com renas", pensava eu. compreensível. provavelmente a mesma senescência que afecta os tratadores de animais, com as suas limpezas de jaulas e recolhas de sémen. há mais desgaste nisto tudo do que em ser sem-abrigo na lapónia.

talvez por isso, por tanto lamentar o estado gágá do pai natal, senti um enorme alívio quando descobri que ele não existia. menos uma mortificação infantil... obrigado mãe, por essas barbas de algodão que um dia te cairam. quase não fico chateadinho por ter sido vigarizado.

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Nini

Camille Pissarro

então nini... ouvi dizer que te deitaram abaixo... chora, nini, chora. a tempestade que não passou, o cavaleiro que partiu, e a carta que não chegou. a carta que não chegou. a carta que não chegou. chora, nini, chora.

sem amarguras não existem surpresas. sem medo não existe bravura. sem o choro não existe o riso. por isso, chora nini... chora. e eu estarei sempre a teu lado para me rir contigo, já que não posso mais chorar por ti . chora, nini, chora. e já agora... manda essas desolações embora.

Sábado, 15 de Dezembro de 2007

O Chapeuzinho de Chuva

Claude Monet

vais o quê? só tens a via da partida. não, não compreendo. dizes que queres correr o mundo, tudo bem. e nós, os que por cá ficam? os que te amam, os que precisam de ti, aqueles que não compreendem? tens aqui uma vidinha, percebeste?! uma vidinha!

(...)

é esse o problema, não é? a vidinha que tens... mas não, não compreendo. se fores nunca mais voltes. guarda bem esta imagem, que farei o mesmo por ti. adeus.

(à medida que se distanciava, crescia dentro de si uma imensa vontade de rir. nunca antes se sentira tão livre.)

Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Um Bar em Folies Bergère

Édouard Manet

ainda a noite era uma menina, e já o velho deus whiskey se apoderara de mim. tinham sido semanas a fio a acariciar as mágoas que agora afogava. nada do que me doesse ficaria à superfície. pelo menos até ao fim da bebedeira.

a barwoman não teve muita paciência para mim. olhava-me condoída. o pesar que as boas pessoas sentem por quem caminha para a destruição. e também não me achou piada nenhuma. ele há coisas que não se percebem. pelo meio contou-me que outrora fora muito feliz. até que um dia certo homem perfeito fez a mala e partiu para sempre, sem olhar para trás.
eu já não aguentava mais. ela era linda, reluzente e ainda por cima cheirava bem! perguntei-lhe então o que uma barwoman descomprometida e intolerante com bêbados metediços, costumava fazer no fim do serviço. porque o tempo era tempo para outro amor perfeito.

"-Nunca saberás...", respondeu, sem sequer sorrir.

estúpida. nem sabe o que perdeu. talvez devesse ter antes perguntado o nome. ainda a noite era uma criança, e a minha solidão um velhinho com barbas.

Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

O Violeiro

Almeida Jr.

trabalhar? era só que faltava. tu não percebes boneca, não percebes. eu sou um artista, um poeta, tenho a alma, a cagança e a ambição. só me falta talento, mas o sonho ninguém me cala. e prefiro ser um miserável do que render-me ao fato e à gravata, às ordens e à insatisfação.
trabalhar? trabalhar o c...! os trabalhadores são prisioneiros, boneca! e bem sabes que não aguento a jaula. trabalhar... olha-me esta... vá, leva-me esse rabo lá para dentro e vai fazer o jantar. e vê se calas os guinchos desse miúdo, assim não consigo tocar. trabalhar... abrenúncio!

Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Nu reclinado.

Amedeo Modigliani

sabrina. estás acima de todos os conceitos morais. tu que em carícias, volúpias e fascinação persuades o mais céptico, seduzes o mais frio e indiferente, orgasmas o mais frígido. tu que és mulher de fogo fátuo, tu que vendes cama, suor e sémen aos homens que te procuram. aos homens que te amam, aos prisioneiros de ti. uma vez pediste-me que jamais te chamasse puta. puta não.

"puta não... serei tua, só tua enquanto durar o aluguer. mas puta... não. puta não".

sabrina. pagaria a tua ternura com a minha vida se assim tivesse que ser. os meus problemas não existem no teu quarto. contigo sou um anjo perdido. sabrina. puta não. sabrina.

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Levantando-se da cama.

Berthe Morisot

sabes, para quem acabou de acordar tens muito bom aspecto. esta noite adormeceste rainha e acordaste princesa. agora veste-te, meu amor, que hoje o sol nasceu só para nós. nos interstícios de todas as glórias da humanidade figurará o dia em que nos conhecemos. já te vi nua, suada, deitada, prostrada, em todas as poses das mais vis às mais edificantes. e no entanto, meu amor, tenho a dizer-te que entre todos os momentos, o mais alto é aquele em que acordas. com bom aspecto, sempre com bom aspecto, madrugada após madrugada.

Quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

O Choro do Palhaço Pobre


eles disseram-lhe que já não tinha piada. que o seu tempo era passado, e que até as crianças o achavam patético. quando o palhaço pobre partiu do circo em que, décadas a fio, animou plateias à gargalhada, estranhamente não pensou em nada. recordava apenas, olhos baços e encandeados, os sons dispersos de uma multidão sorridente, o cheiro permanente a farturas, algodão doce, e ao suor dos animais. o palhaço pobre tivera momentos que valeram por uma vida. mesmo sendo o palhaço pobre.

agora o seu tempo era passado. já não seria o palhaço pobre. então, inevitável, um caudal de lágrimas escorreu-lhe face abaixo, lavando para sempre um rosto maquilhado, descortinando os traços naturais de uma existência há muito confinada aos sons e luzes da ribalta. mirando-se ao espelho do toucador, apercebeu-se de há quanto tempo já não se via. foi a última vez que sentiu vontade de rir.

Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Tédio.

Walter Sickert

eles não sabiam, mas aprenderam da mais passiva maneira. que o pior que pode suceder no casamento não é o adultério. não é o desamor. nem sequer os espancamentos ocasionais. a mais devastadora de todas as presenças, é a do tédio. sim, o tédio. o tédio não dói, mas mata. eles não sabiam, mas o silêncio entre os dois jamais seria interrompido. e de um passado tórrido vagamente exposto em velhas fotografias, já só restava a indiferença.

Sábado, 10 de Novembro de 2007

Meninos no Prado.

Winslow Homer

achas? claro que não! o mundo é muito grande, mas mesmo grande. pelo menos umas cem milhas para lá dos montes. a sério, foi o papá que me disse antes de...

o papá também disse que o fim do mundo é onde o sol se deita entre as montanhas, estás a ver ali ao fundo? é lá que um dia nos vamos reencontrar. eles já estão à nossa espera, ali quentinhos. e então voltaremos a sentar-nos todos juntos à lareira, como dantes. com o papá, a mamã, a avó e o peúga. quer dizer... acho que os gatos não entram no céu... mas depois arranjamos uma daquelas pombas brancas.

olha, o sol já se vai deitar. vamos fechar os olhos e pensar neles. acho que já estou a cheirar os cabelos da mamã.

(e por ali ficaram horas, recordando saudosos os dias felizes de uma infância que já não era.)

Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007

Rapariga à Janela

Salvador Dali

foi quando decidi correr o mundo. a rapariga da casa ao lado não queria que partisse da aldeia. que era ali o meu lugar. a rapariga da casa ao lado nunca me disse o seu nome, nem as suas afeições. a rapariga da casa ao lado só eu podia ver e sentir. a casa ao lado não seria casa ao lado sem a rapariga da casa ao lado.

quando a rapariga da casa ao lado soube que embarcaria no dia seguinte para portos distantes e cais de aventura, chamou-me da sua janela. da janela da casa ao lado. deu-me uma flor. uma flor de estufa. a rapariga da casa ao lado sabia que odeio flores de estufa.

"- é uma flor de estufa", ela sabia que eu sabia.
"em breve murchará nas tuas mãos... não pode viver muito tempo fora do seu ambiente."
"um pouco como todos nós, entendes? sei que em breve voltarás a casa." a rapariga da casa ao lado franziu os olhos molhados e deixou cair a flor. acho que não tinha percebido que a flor já estava morta.

foi a última vez que vi a rapariga da casa ao lado. lembro-me que enquanto me afastava pela escuridão da noite, virei-me para a sua janela e gritei bem alto que eu não era, de certeza, uma flor de estufa.

Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

Jesus com uma Ovelha na Mão

Clyde Provonsha

por onde tens andado, Jesus? hoje fui a tua casa para tentar perceber-te, mas esquece lá isso. acho que sou daqueles que mesmo não suportando os cultos religiosos, têm esperança de vir a testemunhar o teu regresso. porque nunca voltaste, Jesus? se por falta de vontade, nem imaginas como te compreendo. o mundo não parou de mudar desde a tua partida, mas o género humano é sempre igual. uma imensa irmandade de ladrões maus.

fica bem Jesus, e não demores. a malta aqui em baixo bem precisa de salvação, alguém que nos oriente. principalmente aqueles que já só vivem por viver.

Domingo, 4 de Novembro de 2007

Senhora sentada à Espineta

Jan Vermeer

sabes o que tu és? um ignorante.... sim! um ignorante! isso não é um violoncelo, é uma viola de gamba. não vês que tem seis cordas? olha, esquece. fecha a porta, e não te esqueças de não voltar. e se alguém perguntar por mim, finge que não me conheces. sacode daqui!

(nunca conseguiu perceber de onde vinha o brilho dela quando se zangava)

Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Mulher de Braços Cruzados

Pablo Picasso

oh menina azul... só tu me podes salvar dos escombros sentimentais em que estou soterrado. oh menina azul... nunca saberás o que eu sinto por ti. tu que me adoras e abominas, não me dês nunca a tua mão nem queiras saber de mim. oh menina azul... as mulheres como tu não são para os da minha condição. oh menina azul... tão longe e tão perto, nesse azul que nunca será meu.

por ti uiva angustiado o meu lado animal, está mal, está mal...

Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007

Suicídio

Claude Monet

o que mais me poderá interessar se não o desconhecido? as respostas finais às questões que os homens sobressaltam desde o começo dos tempos: de onde vim? para onde irei? de que é feita a realidade? não, meus amigos. não espero que me compreendam. e não chorem por mim, pois a partir de hoje serei finalmente um homem livre.

(só tarde de mais reparou que se esquecera de fazer a cama.)

Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Retrato de uma Jovem

Edgar Degas

hoje vi um pouco de ti em cada mulher relativamente atraente. tentei de tudo para recordar o teu nome, a tua voz. de onde vieste e porque partiste. mas já não consigo. és como um eclipse solar que
só eu consigo ver. que de vez em quando me ensombra para me lembrar que o céu ainda é azul no outro lado da vida. longe dos dias de abandono, dos jardins sombrios e das putas das memórias que não me deixam ser.


Quinta-feira, 25 de Outubro de 2007

O Viajante perante o Mar de Nuvens

Caspar David Friedrich

ondas furiosas rebentavam em sal e espuma nas encostas da praia, abalando rochedos e aterrorizando os mais audazes pescadores. dos céus eram cuspidos estrondosos relâmpagos, sinistramente celestiais, avassalantes. no cimo de um penedo qualquer, um viajante observava as marés vivas, deslumbrado pela violência da tempestade e pelos odores que das águas provinham. cheirava a sal, ventania e piratas apavorados. num trovão que ressoou pelos sete céus, o viajante sentiu-se o profeta de um deus fugidio, e sem saber porquê bradou à tempestade um mandamento novo:

"ACALMA AS TUAS INCERTEZAS, Ó MAR!!"

mas o mar não se acalmou. ainda hoje, serenamente aprisionados, os pescadores pela praia vão suspirando, e contemplando ao longe caravelas perdidas. aguardam e desesperam por uma bonança que, dizem eles, nunca virá
.

Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007

Retrato da jornalista Sylvia von Harden

Otto Dix

e foi assim, doutor. investi tanto na denúncia das opressões, digladiei-me tanto por causas meritórias e por uma carreira brilhante, que me esqueci de mim. então sempre que me lembro de qualquer coisa que não fiz, acendo mais um cigarro. não percebe, pois não doutor? a minha vida é uma merda, a minha solidão uma mortalha. e o gigante intelectual que tem à sua frente já não sabe o que é ser mulher. entre cada cigarro, procuro no fumo que me rodeia as sombras e formas de um passado que nunca tive. o fumo reaviva-me as memórias que já não me pertencem, percebe doutor?

não. não percebe.





Domingo, 21 de Outubro de 2007

O Posto de Observação

Lawrence Alma-Tadema

três amigas de três infâncias ansiavam há três lunários por três galeras. três cadetes elas esperavam, três romances porfiavam. três juras elas guardavam aos três efebos que as arrebatavam. três marinheiros as abordaram e três desastres lhes contaram: três naufrágios para sempre levaram três almas que em choro e cansaço se afundaram. três malogrados que não sabiam que de três dias é feita a vida, e só um nos faz sorrir.

três desvairos as soçobraram, três gritos de dor pelo porto ecoaram, e três sinos então tocaram.
três amigas de três infâncias abraçadas em desalento por ali ficaram. nenhuma das três viu três corvos que sobre elas voavam, que mesmo sem querer por elas velavam.

Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

A Dama de Shalott

John William Waterhouse

não me recordem. só vos peço que não me recordem. eu sou a Dama de Shalott. suplício arturiano e das mais cruéis maldições. símbolo eterno das paixões de Lancelote. o meu nome ecoará para sempre nas cartilhas da tragédia celta. aos poucos sucumbirei neste rio cuja foz será também o meu fim. até lá só quero sentir a brisa do rio, e levá-la comigo para onde for. seja onde for. Lancelote, meu funesto amado... não te esqueças de mim. esperar-te-ei num desses jardins eternos de que falam os sacerdotes.

Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Vogando com a Brisa.

Winslow Homer

aguentem marujos. se não houver coragem, que haja sorte e ficará tudo bem. há quem fuja das tempestades, há quem as contorne, há quem as sonegue. nós atravessamo-las. de peito em chamas e escroto apertado, vamos ao seu encontro. possa a loucura que nos impele ser mais forte do que um mar furioso. e então alcançaremos a sensação de estar vivo a que as gaivotas em terra chamam de adrenalina. aguentem marujos. se não for uma boa ideia, falaremos sobre isso no fundo do mar. primeiros a apalpar as sereias.

Terça-feira, 16 de Outubro de 2007

A Quimera

Dante Gabriel Rossetti

claro que estás a sonhar, imbecil. ela foi-se. para sempre. o que vês é um estilhaço verde-bolor. que estará para sempre cravado em tudo aquilo que és e foste. para sempre. não a procures entre as folhagens. não queiras reencontrar o livro e a flor. o livro e a flor. o livro e a flor. sabes que ela não os levou consigo. provavelmente abandonou-os para sempre à sepultura das tuas memórias. ela não é o teu passado. é a tua condição.para sempre.

Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Homem Jovem à Janela

Gustave Caillebotte

ainda em choque pelo abandono que ocorrera minutos atrás, Renè observava incrédulo a calçada parisiense que por si chamava. sabia que seria a última vez que veria a outra metade de si descer a calçada parisiense, num passo inseguro e apressado. não é fácil dizer "até sempre", disse a ninguém. o nó da garganta, o peito apertado, e uma lágrima que teimava em não cair turvavam-lhe os sentidos e o gozo de viver. de repente tudo perdera o sentido e a lógica natural, e lutar tornara-se redundante. uma prisão em si de quem é mais fraco do que os tormentos que o demandam.
talvez por isso colocou um pé na balaustrada. a calçada parisiense chamava por si, e um misto de euforia e ansiedade provocavam-lhe tremores miudinhos. estava certo do que queria, e fá-lo-ia alegremente. elevou o olhar para o sol, gritou da mais livre maneira (YAAAAAAAAAAAAAAAWP!!!) e ainda ofuscado pelo zénite, atirou-se. a calçada parisiense por si chamava , e em manhãs de morte lenta não se pode dizer não a uma calçada parisiense. coragem Renè, não desistas!

infelizmente era um 2º andar, e apenas conseguiu torcer um joelho e partir o nariz. fica para a próxima, Renè... todos os dias são perfeitos para um suicídio decente.

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

Mona Lisa

Leonardo da Vinci

eu sei,meus filhos, que pouco ou nada sabem de mim. desde a minha criação, homens sedentos de descobertas tentaram entender quem sou. eu sou o semblante que mudou o mundo. eu sou o sorriso que marcou as gerações. eu sou a placidez que mitiga as almas mais enfurecidas. um mistério de contemplação. uma presença etérea que tudo sabe e jamais interfere. eu sou eu. mona lisa. e tudo o mais é não ser.

Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Retrato do Doutor Gachet

Van Gogh

só me arrependo de não ter vivido. juro. sempre que as tentações me atacaram combati-as com novenas, esconjuros e orações. fiquei sempre em terra, na mesma terra de toda a gente e de ninguém. nunca vi os sete mares, nem as sete maravilhas. nunca viajei pela aventura fora, e fiz tudo como vem nas instruções.

foi por vontade própria que não vivi deliberadamente.

Domingo, 7 de Outubro de 2007

O Grito

Edvard Wunch

eles andam aí eles estão à frente eles estão atrás onde eu for eles já chegaram
eles estão longe eles estão perto eles são jesus e satanás
não posso fugir não me posso esconder não me posso matar não posso viver!!
então grito! grito mais alto do que eles podem ouvir já que nada me pertence além da minha loucura

Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

Interior com uma Jovem ao Piano

Wilhelm Hammershoi

por acaso não tinha muito talento. notas insípidas e mãos amíude descompensadas. por uma porta mal fechada observava inerte a sua silhueta de bailarina, e ouvia-a. tocava Beethoven. não muito bem, mas tocava Beethoven. um dia virou-se para trás e perguntou quem eu era. e de onde vinha. respondi que não sabia. tinha nascido naquele momento. ela disse-me que passaria então a chamar-me Ludwig. e que sempre que se sentasse ao piano e tocasse Beethoven, estaria a convocar-me à sua presença.

sabia que nunca resistiria ao seu chamamento. mesmo que tocasse mal, jamais alguém me tocou como ela.

Segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

O Lutador

Honoré Daumier
cansado. mas tão cansado. já sou indiferente ao sabor do sangue e aos brados de uma multidão enlouquecida. basta! ao toque de combate não responderei. já nem me lembro da minha mãe... adorava ficar para um murro nos queixos, mas não foi para isto que nasci. hoje serei um homem livre. na estrada da deserção, ou no gládio de um carcereiro.
apetece-me plantar flores. sim, muitas flores. de todas as cores.

Sábado, 29 de Setembro de 2007

Hero e Leandro

William Etty

perdoa-me, meu amor. sei que por nós terias feito o mesmo. hoje Poseídon foi inclemente contigo, e as profundezas de um mar atiçado ceifaram-te para sempre. mas nem os deuses podem separar-nos. neste penhasco de ondas batentes que aos poucos nos vão levando, o nosso abraço mortal. o abrigo eterno de um amor que só nós podemos compreender. perdoa-me, meu amor.

prefiro morrer contigo do que viver sem ti.

Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Auto-Retrato

José de Almada Negreiros

o dantas? o dantas não é ninguém, e só por não valer nada é que conseguiu ser o esteio de uma geração de destalentados. o dantas é mais um excedentário da história, somente um nome circusntancial, símbolo dos conhecidos em vida e esquecidos na morte. sorte do dantas eu tê-lo achincalhado, ou jamais seria recordado. a não ser como o pai da prostituição política, naturalmente. sim, fui eu o carrasco impiedoso do dantas. o meu escárnio é a sobrevivência do dantas. o meu manifesto a sua imortalidade.

dantescos frutos da perfídia...

Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

Olga

Pablo Picasso

a morena balzaquiana não sabia ser desgraciosa. cada olhar, cada gesto, cada respiração, denunciavam o garbo que poucas mulheres possuem. até a indiferença que generosamente me dedicava. anos perdidos de contemplação, sonho e desejo. até que um dia os deuses nos juntaram. mas só para brincar.

só tarde de mais descobri que a morena balzaquiana não podia esconder quem era. cada olhar, cada gesto, cada respiração, sonegavam a malevolência que poucas mulheres possuem. até os logros que generosamente me dedicava. anos perdidos de exasperação, caos e desventuras. até que um dia os deuses nos separaram. mas só por separar.

e assim começaram os meus problemas.

Domingo, 23 de Setembro de 2007

A Morte de Marat

Jacques-Louis David

quando o jovem e noviço inspector viu o corpo sem vida de Jean-Paul Marat, sentiu que não nascera para aquilo. o semblante de abandono... a ferida que sangra.... a exalação agridoce da morte. ali jazia a mais inflamada das vozes de toda uma geração revoltada. o despojo sangrento de um assassino eternamente a monte. indiferente. porque este foi o dia em Jean-Paul Marat morreu.

no bilhete, um adeus sentido e apressado nos últimos suspiros: por quem mais desesperei, sei que havemos de nos reencontrar. até lá estarei contigo sempre que chores por mim. até um dia destes, e nunca abras o coração a quem não te souber ler.

Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

O Beijo

Francesco Hayez

eles bem sabiam que iria acabar mal. pertenciam a mundos diferentes. ela tinha fortuna e ele dívidas. ela vestia musselina de um azul impossível, e ele uma farpela serapilhada. ela frequentava a cote d'azur, e ele os mercados de moimenta-da-beira. ela cheirava bem, e ele mal.

eles bem sabiam que quando se separassem seria para sempre.

a partir dali nada nem ninguém poderia incendiá-los de paixão. o preço de terem tocado a essência de um amor proibido seria uma saudade tormentosa por alguém que ficou para trás, e que os consumiria até ao fim dos seus dias. o que eles não sabiam é que O Beijo não ficaria por ali. não seria somente o momento das suas vidas.

doravante voltariam a estar juntos sempre que beijassem outra pessoa.

Quarta-feira, 19 de Setembro de 2007

Crente

George Frederick Watts

Deus? sou eu. há muito tempo que não falamos. o meu homem partiu, sou viúva alegre. ele era um filho de uma rameira desmamada, um escroque sem porto nem batel. estou certa de que foi recebido por alguém com cascos e tridente. não precisará das minhas orações. mas a turba de desafortunados que por cá fica, esses sim. por isso....

...e não nos deixeis cair em tentação...

Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

Em Casa de père Lathuille

Édouard Manet

e então prontos, tipo... eu gosto de 'tar contigo porque em termos de amorosamente... tipo, é aquela coisa! acho que é do tipo estás cá dentro do meu coração. e tipo és o meu tesouro e a minha princesa. tipo essas cenas.

(...)

este cabelo? tipo... o que é que tem o meu cabelo?!

Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

O Berço

Berthe Morisot

dorme meu menino, dorme descansadinho que a mamã não sairá nunca daqui. o colinho da mamã estará sempre à tua espera. quando chegares à idade dos porquês dar-te-ei todas as respostas, mesmo aquelas que não souber. serei os teus beijinhos e abraços sempre que os dóidóis do coração te impeçam de fazer óó. dorme, dorme... quando abrires os olhos, verás a única mulher que te amará sem desassossegar nada em troca.

Domingo, 16 de Setembro de 2007

O Mundo de Cristina

Andrew Wyeth

a casa quieta que se alongava pelo topo da colina era a mais respeitada e imponente da região. fitando-a paradamente, cristina desejava que a casa quieta desaparecesse. mas brevemente cairia a noite, e teria que regressar. sabia bem o que a esperava na casa quieta. cá fora um jardim povoado de rosas brancas e margaridas. um baloiço verde a dançar com o vento. uma tabuleta de madeira clara a desejar boas-vindas à casa quieta. lá dentro, uma mãe espancada e um pai de aguardente enfurecido. cristina sabia porque era domingo. e os domingos são assim na casa quieta.

enfurecidos.

Sábado, 15 de Setembro de 2007

Gótico Americano

Grant Wood

não, moço. aqui não há trabalho. estamos na época das mondas, e os campos estão já repletos de gente nossa. as gentes daqui da terra não gostam muito de forasteiros. talvez tenhas parado na cidade errada. se te posso dar abrigo por uma noite? não. eu também não gosto muito de forasteiros.

Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Mariana

Sir John Everett Millais

eles não percebem nada, mas eu sei. desde sempre tentaram explicar o sentido da vida, do tempispaço, do universo e da efemeridade de cem mil gerações. os anjos explicaram-me, e não podem estar errados: o fim primordial de tudo o que foi e acontece é a minha existência. eu. o avatar andante da perfeição cósmica e de todas as utopias. e se Deus me tivesse pedido conselhos na Criação, este mundo seria bem mais admirável.

Os Amantes da Arte

Honoré Daumier

posso dizer-vos, cavalheiros, que sempre soube distinguir a arte do que não o é. e isto para mim, esta espécie de universo de formas distorcidas, é tudo esterco. este artista, pablo pi... quem?! abrenúncio! não nos demoremos, senhores. o tempo urge. já agora... será esta criatura uma mulher ou uma vaca?

(sapientes gargalhadas)

Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Nu

Amedeo Modigliani

vem.aguardo nas ardentes colinas do desejo. insinua-me o grito selvagem que só tu podes soltar. hoje serei a profusão infinita das tuas fantasias. serei princesa, serei plebeia. serei tudo e quase nada. serei o fogo envolvente que te levará às mais livres e suadas regiões astrais. vem. e faz de mim a tua puta encantada.

Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Guilhermina Suggia

Augustus John

diz que era violoncelista. a melhor. mas vi nela bem mais do que isso. o vestido de cetim escarlate. a contra-dança dos braços em movimentos imperfeitos. a luxúria transpirada sem querer. as notas viris e penetrantes dos Concertos de Brandeburgo. o violoncelo ficava-lhe bem entre as coxas e as mãos de fada. estranhamente não veio ter comigo quando terminou. odeio mulheres.

Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Retrato de Fernando Pessoa

José de Almada Negreiros

a folha em que o enfastiado poeta pousava as mãos estava em branco. a inspiração parecia não atender ao chamamento. vulgar. acontece até aos génios. mas naquela noite ele exibia um olhar solenemente inflamado. teria a sua ofélia rasgado as ridículas cartas de amor? teria o patrão vasques detonado as suas iras em descompostura? teria a geração Orpheu sucumbido ao sufoco do classicismo?

só mais tarde se veio a perceber que o café estava queimado.

A Rapariga e o Cão Branco

Lucian Freud

sim. confesso. é mais prazer do que profissão. quando tinha quinze anos o meu pai alugou o meu corpo a oficiais da marinha. desde então odiei-me tanto que nunca pude viver de outra maneira. sim. aprendi a amar cada um dos homens com que me deito. mesmo aqueles que são brutos e cheiram mal. chega de conversa. se não queres nada, sai.

Domingo, 9 de Setembro de 2007

A Virgem e o Menino

Dieric Bouts

vais ouvir dizer que a infância terá um fim, e que o problema das pessoas é serem humanas. vais ouvir cantar louvores a horrores, e descobrirás que nem tu podes estar ao lado de toda a gente. bem-vindo sejas, agora que chegaste sei que nunca hás-de partir. e não te quero a andar por aí com o judas.

Auto-Retrato

Salvator Rosa

calem-se. a não ser que o que tiverem a dizer seja melhor que o silêncio. poupem-me ao deserto de ideias das mentes confortadas. às patetices floreadas dos optimistas. à intifada de pensamentos baldios dos filósofos sem arte. calem-se. e contribuam com o vosso silêncio para a criação de um verso ou dois.

Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

Tarde de Verão numa Praia do Sul

Peter Severin Kroyer

eram duas amigas que partilharam a infância, as dores de crescer, e o mesmo homem. a rebentação das ondas abafava os suspiros e as palavras fugiam ao vento. mesmo assim ouvia os sussurros ao longe. palavras dispersas e recitadas no tom polido de quem nasceu para ser maior do que a maioria, mas não o consegue. uma delas sorriu para mim, não me lembro qual.

Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

Judite e Holofernes

Artemisi Gentileschi

não Judite, não vaciles, avança, coragem, cumpre a tua sanha! concede ao mundo a crença de que somos inimigos, de que aquilo que nos une é o glorioso ódio e não a mais ardente paixão da história das guerras. ninguém te amou como eu, ninguém me traiu como tu.

Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808

Francisco José Goya

Espanha. O general Grouchy, escudado por soldados sedentos de matança, ordena o maior horror a que o mundo Ibérico assistiu nos últimos 300 anos. súbito, um dos condenados ergue os braços aos seus carrascos, e suplica que o deixem fumar um cigarro, aspirar o fumo da morte uma última vez. o garboso general concede o desejo, afinal há que haver generosidade mesmo nas tragédias genocidas. quem sabe se assim Deus e a História serão mais benevolentes com o que hoje fizemos?

infelizmente só havia ventil.

Lady Robert Manners

Allan Ramsey

chegou ao baile serena e quase confiante de que hoje iria conseguir. deambulou, sorriu e passeou classe e estilo pelo salão, enquanto uma orquestra mediana espalhava o som côncavo de trinados convulsos pela atmosfera. tudo para ser uma noite perfeita, pensou. mas no final o resultado de sempre. ninguém quis dançar com ela. acho que o penteado não ajudou.

Retrato de um Jovem com uma Caveira

Frans Hals

o rapaz da pluma descaída tinha melena no cabelo e não era nada interessante. desprovido de carisma. não era bonito nem feio, tanso ou inteligente, casto ou conspícuo. não era sábio. não era vivido. mas mesmo assim gabava-se de ser aquele que, por imposição dos astros, carregava o futuro na palma da mão.