Pablo PicassoIII
lembras-te do que aconteceu ao Jonny?
era obviamente uma pergunta retórica. toda a gente lá do do bairro sabia que o Jonny morreu de amor. mesmo assim respondi, claro que me lembro do Jonny. só. atormentado. cheio de cicatrizes por dentro. o típico miserável que ninguém percebe, mas que todos sabem que fim terá.
pois. no dia em que o Jonny morreu de amor só ouvi passos, sinos e persianas a fechar. houve um silêncio humano por todo o bairro que me desorientou, enquanto os sinos não pararam. nunca antes me havia sentido tão cego.
mas o que me mais me desolou foi ter percebido que toda a gente do bairro sabia que Jonny acabaria por morrer de amor. e ninguém fez nada. toda a gente sabia. e ninguém fez nada. não sei se estás a ver, moço.
não, não estava. ele tinha razão, toda a gente sabia que o Jonny não poderia acabar de outra maneira. mas não estava mesmo a ver onde queria chegar com aquilo. o Cego já me estava a foder. então, brusco, levantei-me para bazar, aquela conversa não era mesmo para mim. muito mais rápido do que eu, o cego segurou-me no braço e sussurrou-me num tom sinistro e sibilante.
fica a saber que o Jonny também almoçava comigo todos os dias. dantes era ele quem ocupava essa cadeira. e foste tu quem herdou a Refeição do Cego e o fim a que ela condena. acabarás como o Jonny. não queiras entender isto. compreenderás quando chegar a tua hora. então perceberás como seria diferente se alguém se tivesse preocupado. agora vai. o Jonny morreu de amor. não foi o primeiro, e tu serás o próximo.
finalmente soltou-me e deixou-me ir. nunca mais vi o Cego, mas só porque não vivi muito mais tempo. quando chegou a minha vez, os sinos do campanário ecoaram novamente por todo o bairro... será que o Jonny também os ouviu?

















































































